Escrevo este texto exatamente duas horas antes da grande final da
Copa de 2026. Na bola, uma grande Copa, apesar de todos os (imensos)
senões extracampo. E na verdade não só na bola, porque o futebol é
esse grande teatro contemporâneo de encenações dos nossos dramas,
emoções, contradições, humanidades. E isso tudo, definitivamente,
sobrou.
Escrevo para me
desculpar. Inicialmente com os leitores (vale dizer: Bruno, Célia,
Rai, Stê e Teo), porque não dei conta de levar o Dibrinho como eu
gostaria. Simplesmente não dei, e aqui não é o lugar pra se
investigar as causas disso. Em segundo, com Lionel Messi. Porque,
seja por alguma obtusidade pessoal, ou somente mesmo pelo meu
desinteresse pelo futebol de clubes da Europa, demorei para
reconhecer o IMENSO jogador de futebol que é. Em termos da história
das Copas – e é disso que esta coluna se ocupa – ouso dizer que
se equipara, e por enquanto só aí, a Diego Armando Maradona. Daqui
quatro horas, pode superar Dom Diego e se equiparar a Manuel
Francisco dos Santos, o Garrinhcha, na hipótese de se tornar
bi-campeão do mundo como protagonista indiscutível de uma campanha
por todos os aspectos admirável. Meu respeito, minha profunda
admiração por Messi: é um grande privilégio ter vivido para poder
ver-te jogar, pibe! Obrigado, muito obrigado, Lionel Messi!
E escrevo, por fim,
pra deixar um registro. Muita, mas muita besteira se disse nessas
últimas semanas sobre torcer ou não para a Argentina. Torço muito
pela Argentina. Pela Seleção, pela Nação. Há a rivalidade, há
as rusgas, há as contrariedades, decepções, raivas. Onde não há?
No amor há, com os filhos há, com os amigos. Torço porque me sinto
latino-americano, mais do que brasileiro. E isso não é um
mandamento, nem uma posição ideológica, nem algo que nasceu
comigo. É só um sentimento que cresceu dentro de mim ao longo da
vida. Mas torço, sobretudo, por uma imensa admiração, respeito e,
por que não dizer?, uma dose razoável de inveja: eles têm o que eu
gostaria de ter. É raça? De alguma forma. É o amor pela camisa,
pela Seleção? Indiscutivelmente. Mas é, acima de tudo, pelo que
para eles ainda torna possível haver essa raça, essa
dedicação, esse amor: a capacidade que têm – e nisso não são
exclusivos, mas são imensos – de se encantar. E aqui quero dizer
especialmente, que é o que ora interessa, se encantar com e pelo
Futebol. E não é só dos jogadores, ou da comissão, é de todo um
povo. Porque como diz um amigo meu, o contrário da morte não é a
vida, o contrário da morte é o encantamento. Eles não morreram. E,
neles, eu não morro. Renasci em 2022, renasço mais em 2026. E a
minha gratidão será eterna. À genialidade de Messi, ao bom futebol
jogado por esse grande time, fora dos cânones da unanimidade burra
que grassa, a um técnico que expressamente prefere o mate, a
parrilla e a milonga aos
teoremos geométricos de números aborrecidos. Obrigado, muito
obrigado, Lionel Scaloni!
Vi
por esses dias, em que me debrucei sobre a história e as histórias
de Messi,
como já eles começam a endeusá-lo e cultuá-lo das mais variadas
formas. E isso será elevado a uma potência inimaginável se los
hermanos hoje se igualarem a
brasileiros e italianos na conquista de dois mundiais seguidos.
Entendi que não era sobre Maradona, tão somente. E também não é
sobre Messi. É sobre eles; e sobre esse Encantamento. É
sobre receber sob vivas e aplausos pelas ruas o time goleado pela
Alemanha em 2010. É sobre mexicanos, caboverdeanos, libaneses e
bengali. É sobre
ídolos, heróis, mitos; sobre a capacidade de ver que “a
vida
não é só isso que se vê. É um pouco mais. Que os olhos não
conseguem perceber. Que as mãos não ousam tocar. Qu os pés recusam
pisar”.
Felizes
daqueles que ainda podem sonhar, que ainda podem se Encantar
com essa bola que corre de
pés em pés dentro de quatro linhas;
que ainda podem fazer do Futebol
esse lugar de dramatizar, aprofundar, esquecer suas dores,
frustrações e dificuldades; relativizar, colorir, celebrar,
multiplicar seus afetos, alegrias, esperanças. O Futebol,
sim, meus queridos… Essa brincadeira de meninas e meninos. Puro
amor à bola, à vida, à humanidade. Até,
porque fora disso, não há mais nada a fazer.
Fernando Szegeri
E.T.
Com este texto, despeço-me do Dibrinho. Foi bom, desde 2010. Cumpriu
a sua função, só não mais por minha exclusiva responsabilidade.
Agradeço imensamente à Railídia e ao Chico Szegeri que em
diferentes momentos se animaram com a brincadeira e deram,
indubitavelmente, uma qualidade, um colorido, uma vitalidade
fundamental para que essa coluna chegasse até aqui. Agradeço aos
outros quatro leitores acima nomeados e reitero o pedido de desculpas.
A página está de portas abertas à Rai e ao Chico para suas
despedidas. Acho que ficaríamos todos bem felizes. Ponto final.
Tchau.