Perguntei ao meu jovem amigo, Luis Cunha, físico, bebedor e são Paulino, se ele leu minha última crônica aqui no Dibrinho. Ele soltou: clubista, como eu esperava. Eu me diverti. É que já falei aqui do Gustavo Gomez e do Maurício, atletas do Palmeiras que estão na seleção paraguaia. Hoje eu vou falar de outro palmeirense. Uma cria da academia, o Endrick.
Carlo Ancelotti não colocar o Endrick pra jogar é uma das situações mais irritantes e os motivos para isso se transformaram em um dos mais bem guardados segredos de Fátima. Ainda neste contexto católico, só uma observação: A estreia da seleção brasileira na Copa foi uma visão do inferno. O Brasil parecia um jogo de casados x solteiros. Ou pior: Fez lembrar do 7 x 1. Parecia que cada ataque ia virar gol do Marrocos. Ainda bem que os africanos, apesar de bem-organizados, parecem ter alergia a gol. Ouvi um comentarista dizer isso e achei muito bom.
Que Marrocos, que nada, disse o veterano Fábio Sormani. “O Marrocos da geração sofscore”. O que me fez lembrar de como o Nelson Rodrigo pegava no pé do jornalista Armando Nogueira que exaltava o time da Hungria dos anos 50: “A Hungria do Armando Nogueira”. Se o Marrocos fosse bom mesmo, o Brasil tinha perdido o jogo porque a seleção estava uma baba.
Além de unidos na revolta e decepção, outro fato uniu os brasileiros naquela tarde de sábado: Endrick. Assisti ao jogo na Vilinha Sá Barbosa, acompanhada de uma turma bem diversa. Só que naquela hora ali no bar todo mundo era especialista. Claro! Tinha ali uns vinte técnicos palpitando e todo mundo queria que o Endrick entrasse em campo. O técnico italiano (maledito) desagradou ao Brasil inteiro.
Endrick, negro retinto, de família pobre, tem apenas 19 anos e passou por muitos momentos de superação na vida e na carreira. Dizem por aí, e parece mesmo, que os técnicos não gostam dele. Pior para os técnicos. Além do povo, uma boa parte da mídia esportiva quer que o Endrick entre em campo, como titular ou como opção no segundo tempo.
Eu acho o Endrick um craque e admiro essa obsessão que ele tem pelo jogo. Um instinto de fera que quando é chamado parece aqueles felinos do National Geographic se movimentando com força e deslumbre. É um artilheiro. Tem uma técnica e habilidade que estão ali vivas, queimando em brasa pra jogar na seleção. Tem fome de bola e alimenta aquela esperança brasileira que o jogo vai virar a nosso favor. Endrick traz alma pra essa seleção sem graça, aposentada e covarde.
Ancelotti, homem de pouca fé, não enterre nossa seleção, deixa o menino jogar.
PS: foto do Endrick tirada pelo fotógrafo Lesly Marinho. Em 2022, o jogador tinha 15 anos, e o Brasil vendeu um torneio sub-17 na França. os locais ficaram encantados com Endrick. Detalhe: derrotamos a Argentina.
Railídia

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