sábado, 20 de junho de 2026

Galvão Bueno: O craque do jogo

Ainda bem que eu mudei de canal para o segundo tempo do jogo do Brasil x Haiti. Estava na Globo e fui para o SBT. Aquela voz familiar do Galvão Bueno, a obsessão dele pela seleção, as gafes, o Olodum: É muito Brasiiiiiilllll ! Quanto ao jogo não foi muito parâmetro para nada. É óbvio que a seleção canarinho venceria. Achei que ficou devendo, mas esse não é o tema. No jogo contra a Escócia é que o Brasil vai ser testado para valer.

Deixando a corneta de lado e voltando ao craque do jogo, vejo o Galvão personificando um pouco o sentimento brasileiro da massa. Antes era na Globo, agora no SBT. Vivi pra ver o Galvão na emissora rival do plim plim. Jovens, plim plim é uma vinheta criada pela Rede Globo e o Galvão Bueno é um narrador de futebol que durante quatro décadas narrou jogos de futebol e de copas do mundo pela emissora.  O Galvão era a cara da Globo. Ele deixou a emissora na Copa passada para se dedicar a outros projetos e quem sabe se aposentar.

Obviamente não deu certo. A narração esportiva e a seleção brasileira são a cachaça do Galvão Bueno. Nada de aposentadoria. Voltou em grande estilo para narrar os jogos do Brasil e outros confrontos importantes da Copa. Eu nem sabia que o Galvão tinha sido contratado pelo SBT. Descobri na estreia do Brasil quando assistimos ao jogo na Vilinha Sá Barbosa. Perdíamos por 1 x 0 do Marrocos e os presentes no bar pediram para colocar na Globo. Mudou e o Brasil empatou o jogo. O Teo, dono do bar, começou a gritar: “O povo não é bobo, viva a Rede Globo. Só tem louco!

Sem o Galvão Bueno a Globo perde o charme e a emoção das transmissões. Pude constatar no primeiro tempo desta sexta. Neste jogo contra o Haiti, o Galvão parecia ler os meus pensamentos em todo comentário que fazia: “Eu tô louco pra o Endrick fazer um gol pra pegar confiança para os próximos jogos”, “Esse quarto gol que não veio pode fazer falta”, “Não gostei de o Brasil jogar defendendo o resultado”. Para mim ele acertou tudo e por isso foi o craque do jogo. 

Quando ele chamou o Olodum aí eu fui à loucura. Até o Olodum foi para o SBT embalar as transmissões e dar sorte para o Brasil. O script estava completo. Não pode ter Copa do Mundo sem o Galvão Bueno. Tem gente que não suporta, mas eu acho que ele é afetivamente um membro da minha família. Da família do Pará, especialmente. Galvão me faz sentir em casa. 

Sendo assim, pode falar, Galvão. Fica à vontade.

PS: O Brasil venceu o Haiti pelo placar chocho de 3x0

PS2: Na Copa de 2010 estourou o meme Cala a boca, Galvão. Trend Topics do twitter. Galvão sobreviveu e continua por aí falando pra caramba.

Railídia 


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Não lereis

 

Independentemente do maior ou menor acerto, utilidade, ou graça daquilo que vai por essas linhas, afianço que jamais por aqui lereis “atacar o espaço”, “entre as linhas”, “minutagem”, “intensidade”, “assistência” , "verticalidade" e quejandos.

Preliminares

 

Eis que piscamos e a primeira rodada se foi. E, do que vimos, ficou das principais camisas:

- a decepção de Portugal, lento, sem pegada, sem brilho. Burocrático. E com jogadores que individualmente não corresponderam ao que se espera.

- a força da França, que colocou a máquina pra funcionar quando precisou  superar o bom time do Senegal, que foi melhor no primeiro tempo e mostrou um bom nível técnico. E a máquina não negou fogo:  Mbappé, mesmo num dia “pouco inspirado” foi letal. E Olise é o Carne Frita dos gramados: passa como se usasse um taco de sinuca...

- o futebol da Inglaterra, sim senhor. Contrariando história e estatísticas, o English Team parece que será uma força a ser batida. Consistência, volume, nível técnico, força física. E Harry Kane.

- a Argentina destoando um pouco da mesmice do futebol arqui-previsível dos tempos que vão. Um time que aparentemente joga em outro ritmo, outra lógica. E com um gênio pra ajudar, que parece efetivamente que não veio pra fazer figuração.

- o Brasil melancolicamente rebaixado ao nível de força intermediária.

- a incógnita da Espanha, que parece que está pronta pra dar o bote, mas não consegue; a Holanda forte, mas a quem talvez falte algum “espírito”; e a Celeste que no papel tem um time bem melhor do que mostra em campo. De ver. 

Devo a Alemanha, que não consegui ver.

Fernando Szegeri

A falha do goleiro da Coréia do Sul

Calma aí, gente, deixa eu consultar aqui o nome do goleiro da seleção da Coréia do Sul...Achei: Kim Seung-Gyu. Conversando com o Fê na noite desta quinta-feira, nós dois lamentamos a falha do sul-coreano, o episódio que me comoveu naquela partida meio monótona entre Coréia x México, na segunda rodada da Copa do Mundo. 

O México venceu por 1x0 e se classificou para a próxima fase da Copa, que é o mata-mata. Em um lance que, aparentemente não daria em nada, Kim Seung-Gyu saiu do gol, pegou a bola e se chocou com o zagueiro. No choque, o goleiro sul-coreano soltou a bola e o atacante mexicano Luis Romo botou pra dentro. Kim desabou, estapeou o gramado e a decepção tomou conta dele e de toda a seleção. Naquele momento. 

Pouco antes do lance, a transmissão da Cazé Tv disse que a seleção sul-coreana tem um psiquiatra à disposição do elenco para fazer a leitura dos momentos de estresse e ir buscando um equilíbrio. Juro que achei que a próxima substituição da Coréia seria sai fulano e entra...o psiquiatra. 

Mas o goleiro que falha, o jogador que erra pênalti, o defensor que entrega e o adversário faz gol, esses personagens têm que se recuperar rápido. Ainda tinha um tempo inteiro pela frente e Kim Seung-Gyu fez pelo menos mais duas defesas fantásticas. No jogo de estreia da Coreia contra a Tchékia, os asiáticos venceram de virada e o Kim foi um dos melhores da partida. 

Como eu disse aqui em uma das minhas primeiras crônicas: “A Copa é cheia de dramas e voltas por cima. Praticamente uma novela ou um dorama!” Não vi a forma como Kim Seung-Gyu deixou o gramado, mas fiz um exercício só meu e de vocês: Ao apito final, ele cumprimentou cada um dos colegas, rosto severo, nada de desculpas ou lamentações e “desceu o túnel” com o coração agora só pensando na África do Sul.

Experimentar sempre a glória é para os fracos. Os fortes assimilam o fracasso como se tomassem um energético. 

Meus respeitos, Kim. Boa sorte na próxima rodada.

Railídia





quinta-feira, 18 de junho de 2026

Eu tive um (bom) sonho em alemão

Não, meus amigos, não é aquela lembrança horripilante, não! 

Aproveitei um trecho da música homônima dos craques Wilson Batista e Moreira da Silva para falar desse trio dos sonhos da Copa do Mundo: Harry Kane, Olise e Luis Diaz. Uma verdadeira sede das Nações Unidas: Kane é inglês, Olise joga pela França (mesmo nascido e criado na Inglaterra) e o nosso Luis Diaz é colombiano. 

Fiquei sabendo que eles jogam juntos no Bayer de Munique!!!. Opa, quando recomeça o campeonato alemão??? Não dou nenhuma bola para o futebol que rola fora do Brasil. Tem muitas séries para acompanhar aqui e sou bairrista mesmo. Ainda bem que a Copa do Mundo deu essa possibilidade de ver esses atletas jogando agora. Sem nhenhenhém. Chegam e resolvem, carregam pedra, na garra, na técnica, na marra (de marrento, no caso, o Olise). 

Estou torcendo para todos os latino-americanos, menos para a Argentina. Óbvio. Sou torcedora raiz. 

A Colômbia é um time que adoro: Diaz, Árias, Rios, James Rodriguez, Carrascal. O Uzbeque achou que podia fazer frente, mas Luis Diaz fez uma partida maravilhosa. Mandou no jogo. Destemido, hábil, goleador e emocionado. Tudo o que amo na Copa. No jogo entre Inglaterra x Croácia comecei torcendo pra Croácia e terminei “Salve a rainha Elizabeth!”. Por causa do Harry Kane. Parecia que a Inglaterra tinha um a mais. Que jogador. O Olise é o que eu menos simpatizo (ignorou nossos craques), mas ele jogou demais pela França. Que medo desse jogador e inveja. Queria os nossos com o mesmo ímpeto dele. Futebol nós temos, só perdemos a confiança. 

Não posso terminar essa crônica sem falar nele, o meu guru Nelson Rodrigues. Falava tão mal da Inglaterra: futebol xôxo. Pois é, Nelson, a Inglaterra fez um baita jogo de estreia. Foi a melhor das seleções que eu vi. Ah, se você estivesse aqui daria à vitória dos ingleses sobre a Croácia o devido tom de um feito de dignas batalhas ou apostaria que fracassariam fragorosamente nos próximos jogos.

Afinal, só um título mundial não credencia ninguém. 

Todo mundo tenta, mas só nosso Brasilzão é penta.


PS : Só não coloquei o Mbappé aqui porque a pauta pedia o trio do Bayern. Mas ele virá...em outra crônica.

Railídia


terça-feira, 16 de junho de 2026

Carlo Ancelotti é o meu personagem da semana

A Copa do Mundo de 2026 está no sexto dia e eu só consigo pensar no fiasco da seleção brasileira na estreia contra Marrocos. Esse é o motivo que me faz escolher Carlo Ancelotti como meu personagem da semana. Esse espaço também é uma homenagem ao escritor Nelson Rodrigues. Ele criou essa rubrica nos anos 50 e 60 e eternizou personagens fascinantes do futebol daquela época.

O italiano Carlo Ancelotti é um mistério para mim. Ele tem um tipo que nem consigo dizer , de maneira geral, se gosto ou desgosto. No momento, desgosto muito. Disseram que ele foi conservador no primeiro jogo da seleção. Eu acho que foi covarde. O mister me irrita mascando aquele chiclete daquele jeito meio blasé. Ué, mas ele não é italiano? Nunca o vi mexendo as mãos daquele jeito clichê que a gente vê nas novelas brasileiras. Acho que eu prefiro o tipo italiano abrasileirado da Mooca, Bixiga e Brás.

O fato é que muita gente achava que o Ancelotti iria trazer outros ares para a seleção, mas é tudo meio que mais do mesmo: a falta de transparência, as negociatas, a onipotência, a falta de peito pra treinar a seleção que tem um legado do futebol que os europeus tentam enterrar, inclusive ele. Falam por aí que Endrick não é escalado porque a intuição fala mais alto no jogador do que a obediência tática. 

Há um poema do escritor Oswald de Andrade que diz: “Quando o português chegou/Debaixo duma bruta chuva/Vestiu o índio/Que pena! Fosse uma manhã de sol/O índio tinha despido o português.” Nelson Rodrigues conta em uma de suas crônicas que quando os europeus chegaram no Chile, na Copa de 62, estavam convictos que sabiam todos os segredos do futebol brasileiro. Entraram pelo cano: Brasil Bicampeão do Mundo.

A figura do Ancelotti não me fascina nestes primeiros tempos de seleção brasileira. Eu não babo com a coleção de taças que ele empilha dos campeonatos de lá. A mim dá um tédio, um sono, faço picuinha mesmo, principalmente quando vejo aqueles seres da imprensa brasileira com aquela “baba bovina e elástica” pendendo do lábio.  Que nojo! São os vira-latas mais vivos que os vivos. 

Já que o Ancelotti quer vestir o Endrick eu faço campanha pelo Ancelotti nu. Vem, Ancelotti, conhecer a história impressa no corpo e alma dos nossos meninos e sua memória brasileira de dribles, habilidade e intuição de Pelés, Manés, Ronaldos e Neymar. Venha minimamente despido das suas convicções e desembarque novamente no Brasil (já que vai ser mesmo o técnico da próxima Copa). Só que desta vez como professor e não colonizador.


Railídia


Heróis

 O goleiro Josimar Dias, batizado em homenagem ao meteórico lateral brasileiro da Copa de 86, que atende pela alcunha infantil de Vozinha, foi imensamente abraçado pela torcida brasileira que fez as redes sociais do caboverdeano pularem de 50 mil para 6 milhões e meio de seguidores, mais de 12 vezes a população de seu país, em menos de 24 horas.  

Eu que não dou uma pinoia por rede que não seja de deitar, balançar e namorar, acho que nós estamos é carentes demais. A indiferença da torcida para com o time de camisa amarela não tem a ver com política, ideologia, ou cifrões. Tem a ver com as empatias que são despertadas por seres humanos de carne e osso, com histórias de vida, com avozinhas e apelidos de infância; que ao vestirem uma camisa e pisarem num gramado estejam empunhando essas mesmas histórias, suas alcunhas e antepassados, e não apenas contratos publicitários, perfis midiáticos ou interesses mais ou menos confessáveis.

A rede dos nossos heróis míticos é outra. E já passou da hora de ostentarem algum caráter.

Espanha x Cabo Verde

Teve Davi & Golias, teve Sobrenatural de Almeida, teve personagem da semana, teve atuação nota 10, teve de um tudo. Espanha e Cabo Verde protagonizaram um daqueles momentos que fazem uma Copa do Mudo ser uma Copa do Mundo: uma seleção estreante, de um pequeno país africano de pouco mais de meio milhão de habitantes,  parar o time de centenas de milhões de euro, orçamento que só não é maior do que a própria empáfia espanhola. O “OxO” possivelmente mais vitorioso da história das Copas foi garantido por atuações magistrais dos defensores caboverdeanos, com destaque para o zagueiro Diney Borges que incorporou Domingos da Guia (em homenagem à Railídia e ao nosso guru comum, Nelson Rodrigues) e jogou uma das partidas mais perfeitas que vi um zagueiro fazer nesses quarenta e nove anos de arquibancadas. Mas não foi só. Teve o também zagueiro Pico Lopes igualmente imenso, teve a entrada impecável do lateral João Paulo e teve, pra quem quisesse ver, o goleriaço Vozinha, de 40 anos, com pelo menos oito defesas impotantes, duas das quais milagrosas.

Do lado dos espanhói de se destacar a calma, quase indiferença, que mantiveram rigorosamente até o último apito do juiz, que talvez possa vir a ser útil em algum momento desse Mundial. Calma, aliás, que não se estendeu às arquibancadas que vaiaram fragorosamente o time a partir do segundo tempo, com trégua somente para a entrada do tal Yamal, a quem fui finalmente apresentado. E que também não jogou nada.

O orgulho e a entrega dos jogadores ilhéus  poder-se-ia dizer contrastantes com a frase do seu técnico, ao final da partida, quando perguntado sobre o que Cabo Verde deveria fazer dali para frente: “os caboverdeanos só tem que se divertir”. Mas para aquele que anda nas ruas, é mais que sabido que é na diversão que se protagonizam os momentos mais sérios da vida.

Fernando Szegeri


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Japão x Holanda

Ótimo espetáculo de futebol, com tudo o que a gente espera de um jogo de Copa do Mundo: dedicação, bom futebol de parte a parte, surpresas, quatro gols. Destaque para os alas Nakamura e Ito, do Japão, que desconcertaram a defesa laranja, mais preparada para um boletim meteorológico do que para uma inversão de jogada. O técnico holandês, com substituições e orientações questionáveis, mostrou que um time  que está bem, mas que recua demais, pode pagar um preço alto numa competição que se destaca pelo nivelamento.

Fernando Szegeri

Sinais

 Zagalo não tinha cara de míster. Vicente Feola nunca na vida ouviu a palavra míster. Felipão espirrou muito e teve crise de urticária quando leu no jornal a palavra míster. Parreira é engomadinho, mas não é mister. Aymoré Moreira não tinha nem o branco do olho de míster. Nem Telê Santana, que não ganhou, mas encantou, tinha cara de míster. Agora... Lazaroni tinha cara de mister. Tite (me perdoem, leitoras) tem cara de míster.

Mister estarmos atentos aos sinais.

Fernando Szegeri

Outros brasis

 

Talvez porque fosse Santo Antônio. Talvez porque eu estivesse no Brasil. Não no brazil de místeres oriundos de países em que o futebol acabou,  nem de confederações pilotadas por ministros juniores. No Brasil da nossa gente preta, índia, cabocla, cafuza, branca a se debruçar por andores e pendores. (Isso não é verso, mas rimou) O fato é que assisti o jogo com mais emoção do que seria capaz de inspirar o timinho que usa a camisa parecida com a outrora envergada pelo Escrete; com a emoção que vem do Brasil por onde ando há cindo décadas.  E por estar comovido – e feliz – nem liguei pro futebolzinho já esperado dos amarelos.

Talvez por assistir o jogo com olhos de menino, ainda deslumbrado por essa grande brincadeira chamada futebol; talvez pelo meu gosto por ele estar muito mais misturado aos cheiros das arquibancadas de cimento, dos banheiros urinados e dos lanches duvidosos, e muito menos ao das redações e estúdios por onde andaram os hoje ranzinzas de uma crônica esportiva moribunda. Mas o segundo fato é que eu gostei do jogo e me alegrei com o futebol marroquino, solto, instigante, apesar de não chegar efetivamente a brilhar, nem a deslumbrar. Foi uma pena terem murchado e recuado após o gol valoroso de Vinícius Júnior que, se não foi brilhante, como de hábito, foi digno.

Dignidade que, aliás, anda bem em falta na praça.

Fernando Szegeri

Endrick


Perguntei ao meu jovem amigo, Luis Cunha, físico, bebedor e são Paulino, se ele leu minha última crônica aqui no Dibrinho. Ele soltou: clubista, como eu esperava. Eu me diverti. É que já falei aqui do Gustavo Gomez e do Maurício, atletas do Palmeiras que estão na seleção paraguaia. Hoje eu vou falar de outro palmeirense. Uma cria da academia, o Endrick.

Carlo Ancelotti não colocar o Endrick pra jogar é uma das situações mais irritantes e os motivos para isso se transformaram em um dos mais bem guardados segredos de Fátima. Ainda neste contexto católico, só uma observação: A estreia da seleção brasileira na Copa foi uma visão do inferno. O Brasil parecia um jogo de casados x solteiros. Ou pior: Fez lembrar do 7 x 1. Parecia que cada ataque ia virar gol do Marrocos. Ainda bem que os africanos, apesar de bem-organizados, parecem ter alergia a gol. Ouvi um comentarista dizer isso e achei muito bom. 

Que Marrocos, que nada, disse o veterano Fábio Sormani. “O Marrocos da geração sofscore”. O que me fez lembrar de como o Nelson Rodrigo pegava no pé do jornalista Armando Nogueira que exaltava o time da Hungria dos anos 50: “A Hungria do Armando Nogueira”. Se o Marrocos fosse bom mesmo, o Brasil tinha perdido o jogo porque a seleção estava uma baba. 

Além de unidos na revolta e decepção, outro fato uniu os brasileiros naquela tarde de sábado: Endrick. Assisti ao jogo na Vilinha Sá Barbosa, acompanhada de uma turma bem diversa. Só que naquela hora ali no bar todo mundo era especialista. Claro! Tinha ali uns vinte técnicos palpitando e todo mundo queria que o Endrick entrasse em campo. O técnico italiano (maledito) desagradou ao Brasil inteiro. 

Endrick, negro retinto, de família pobre, tem apenas 19 anos e passou por muitos momentos de superação na vida e na carreira. Dizem por aí, e parece mesmo, que os técnicos não gostam dele. Pior para os técnicos. Além do povo, uma boa parte da mídia esportiva quer que o Endrick entre em campo, como titular ou como opção no segundo tempo. 

Eu acho o Endrick um craque e admiro essa obsessão que ele tem pelo jogo. Um instinto de fera que quando é chamado parece aqueles felinos do National Geographic se movimentando com força e deslumbre. É um artilheiro. Tem uma técnica e habilidade que estão ali vivas, queimando em brasa pra jogar na seleção. Tem fome de bola e alimenta aquela esperança brasileira que o jogo vai virar a nosso favor. Endrick traz alma pra essa seleção sem graça, aposentada e covarde.

Ancelotti, homem de pouca fé, não enterre nossa seleção, deixa o menino jogar.  


PS: foto do Endrick tirada pelo fotógrafo Lesly Marinho. Em 2022, o jogador tinha 15 anos, e o Brasil vendeu um torneio sub-17 na França. os locais ficaram encantados com Endrick. Detalhe: derrotamos a Argentina.


Railídia 


sábado, 13 de junho de 2026

Baile dos EUA em "Assunción"


“Foi num baile em Assunción

Capital do Paraguai

Onde eu vi as paraguaias

Sorridentes a bailar”


Pois é, minha gente. Literalmente a seleção do Paraguai levou um baile dos EUA: 4 x 1. Foi uma decepção. Apostei todas as minhas fichas na La Albirroja, como é conhecida a seleção paraguaia. Os motivos do meu otimismo são, nessa ordem: Tem três jogadores do Palmeiras entre os convocados, estrearia contra os EUA e é um time sul-americano que após 16 anos volta a disputar uma Copa do Mundo.

“Sem alma não se chupa nem um chicabon” dizia Nelson Rodrigues. Pô, meus greengos, hoje era o dia de baixar a moral de quem anda por aí bombardeando o mundo. Fazer um jogo duro dentro da casa deles. Dia de vingar os golpes militares no nosso continente. O fato é que eles é que nos surpreenderam e a nossa Pearl Habor futebolística foi uma vergonha.

Onde estava a alma do Paraguai no jogo desta sexta-feira, 12 de junho? 

Interessa a mim mais a alma que a técnica, que parece ter ficado em Assunção. O Paraguai fez um gol contra aos 7 minutos já muito pressionado pelos EUA e teve uma pane coletiva que durou praticamente os 90 minutos, à exceção do momento do gol. Aliás, gol palmeirense anotado pelo Maurício, jogador brasileiro naturalizado paraguaio.

O “dementador americano” (alô, Harry Potter) roubou toda a felicidade dos paraguaios. Eles se transformaram em 11 pernas de pau. Menos Gustavo Gomez, o capitão da La Albirroja. Ele é um poço de integridade e coragem. Hoje parece que só tinha ele em campo. O Paraguai jogou com menos 10. 

Pra piorar, comecei a assistir o jogo aos 2 minutos e de início, torci para os EUA que usavam uma camisa com as cores vermelha e branca, igual a principal do Paraguai. Só que as listas eram horizontais. Aí notei que o Paraguai estava de azul marinho. Fica a dica: Em camisa que está ganhando não se mexe. 

Que a seleção Paraguai levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima. Teve seleção ai que perdeu primeiro jogo e acabou campeã. Futebol, eu te amo. Ainda bem que a Copa começou e melhor ainda que está longe de terminar. 


PS: Os versos acima são um trecho da música Galopeira na versão conhecida no Brasil. Originalmente, a música é de autoria do compositor paraguaio Mauricio Cardoso Ocampo. 


Railídia


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Quiñones, o meu personagem da abertura da Copa

A quinta-feira de abertura da Copa foi espetacularmente um dia que começou complexo pra mim. Sabe quando você equilibra mil pratos, faz tudo e no fim vê que aquela listinha de tarefas virginiana não foi cumprida como deveria? Dá uma angústia. Daí o jeito foi afogar a ansiedade (a mágoa perdeu a vez) no futebol. 

“Esquece a casa e o trabalho

A vida fica lá fora

E tudo fica lá fora

Inferno fica lá fora

As dores ficam lá fora”


Ah, aquele ambiente que potencializa mil vezes as ruazinhas em volta da Curuzu, no estádio do Paysandu em Belém, vendendo churrasquinho. As barracas em volta da Arena Barueri do Verdão, em São Paulo, com aquele leitão delicioso. Um zumzumzum de torre de Babel. Eu adoro o futebol, mesmo vendo pela tv.

E no clima do dia dos namorados, eu me apaixonei pela torcida mexicana no jogo de abertura da Copa nesta quinta (11). O Fê fez a resenha do jogo  México x África do Sul. Leiam, comentem, de preferência entrem no google com o e-mail de vocês senão aparece todo mundo anônimo. 

Sempre torci pelo México e desta vez também. Para quem vê futebol mundial dia e noite pode ter sido uma apresentação comum, mas teve um ponto que me trouxe uma felicidade que só o futebol traz: o encanto com a habilidade, a personalidade e a emoção de um atleta. Sabe aquela angústia que a rotina imprimiu em mim ontem? Foi pra casa do ...carvalho quando o Quiñones fez o primeiro gol. Porra, México!!!!

O escritor Nelson Rodrigues, meu ídolo, escreveu as mais sensacionais crônicas de futebol. Ele tinha uma coluna chamada Meu Personagem da Semana. Dá licença, meu mestre, de copiá-lo na cara dura. Quiñones é meu personagem da vez: Parecia que ele era o time inteiro e jogava em todas as posições. Defendeu, atacou, armou e fez gol. Nascido colombiano se naturalizou mexicano porque parece que a Colômbia esnobou seu talento. A copa é cheia de dramas e voltas por cima. Praticamente uma novela! 

Aos 29 anos, Quiñones joga na liga árabe. Um homem negro latino-americano cheio de ginga e personalidade. Jogador que faz a fria técnica ganhar vida. No primeiro gol dele eu levantei da cadeira e gritei: Porra!

Só que o meu grito foi um palavrão, como bem conhecemos no Brasil. Sabiam que no México a palavra Porra significa algo do tipo vamos torcer para o México? Não é palavrão. Portanto, Porra, México! Boa Sorte. E também a nós brasileiros que fomos muito felizes em 70 neste país.

PS: Os versos que escrevi no início desta crônica fazem parte da música Aqui é o pais do futebol (Milton Nascimento e Fernando Brant) gravado pelo grande Wilson Simonal , em 1970

PS2: Colocar o sinal Til no N do Quiñones exige uma reprogramação do cérebro.

Railídia


quinta-feira, 11 de junho de 2026

O pior

 Fazendo jus à sua lamentável carreira, a atuação de Wilton Pereira da Costa no confronto entre México e África do Sul é a pior da Copa até o fechamento desta edição.

                                                     Fernando Szegeri

México x África do Sul

Dentro das 4 linhas, do tanto que vi, algumas impressões e poucas conclusões. A mais evidente é que a África do Sul é um time bastante limitado, que com os dois desfalques advindos das expulsões se torna a primeira candidata séria a ficar pela primeira fase. Já o México mostrou organização, aplicação e velocidade, não chegando, no entanto, a empolgar no quesito criatividade e não conseguindo efetividade ofensiva capaz de dar à partida números mais condizentes com a sua superioridade.

A impressão maior fica por conta de uma certa mesmice que parece grassar atualmente no futebol. Todo mundo joga meio parecido, com maior ou menor competência; a sensação é que sempre está se vendo mais ou menos o mesmo campeonato. Tomara que os próximos 103 jogos venham me convencer do contrário.

Em tempo: aplausos efusivos para a torcida mexicana, que fez a festa à altura da grandeza desse povo esplendoroso. Ainda que bem mais embranquecida que as lembranças das ruas que por lá andei.

                                                    Fernando Szegeri 

O Dibrinho tá dominado: Olha, quem chega

Alguém perguntou um dia ao chegar nas rodas de samba da vida:

- que horas começa o samba?
Outro respondeu: Já começou!

Pra mim a Copa do Mundo começou em 1982, quando eu aos 10 anos me encantava pela seleção brasileira. Morava na Transamazônica, no bairro da Brasília, sem água encanada, muitas vezes sem luz, em uma casinha que vi por anos mamãe construir. O que sobrava na rua naquele tempo da Copa era esperança, farra, bandeirinhas penduradas e muitas camisas verde e amarelo.

Tô comovida como o quê porque amo futebol. Amo a Copa do Mundo e continuo amando a seleção canarinho. E minha felicidade não poderia ser maior porque agora sou colaboradora do Dibrinho, esse modesto pedaço de chão que vai ser um pouco a nossa mesa de bar, a “anticobertura jornalística”, nosso confessionário e a arquibancada de onde vamos mandar nossos palavrões mais afetivos.

Já chego contrariando o editor e criador do Dibrinho, meu mano Fernando Szegeri. Quero ver a caveira dos Hermanos argentinos. A dos franceses, então. Tomara que os Hermanos percam de 7 x 1 pra Argélia e os franceses tomem um sacode do Senegal. Sim, guardo rancor. 

E só mais um palpite: minha gente, chega desse negócio de mister pra o Ancelotti. Aliás, uma sugestão, professor, põe o Endrick.

Até!

Railídia 

2026

E não é que vai começar tudo outra vez???

Eu já estou com a cerveja gelada, a tabelinha e a caneta na mesinha da sala. Quem vem junto?

Hoje é a primeira partida de Copa do Mundo depois da maior que vi em toda a minha vida, a finalíssima de 2022 entre os hermanos capitaneados por Messi e os enfants de la Patrie, com Mbappé e companhia. Que não teve resenha no Dibrinho, por faltarem palavras e sobrarem lágrimas. (E pela torcida na redação estar ferozmente dividida, uns ouvindo Gardel e La Negra aos prantos, outros não vou nem comentar. Humpf!) 

Bora pra cima! Viva o futebol! Viva a festa! Que é a gente que faz, aconteça o que acontecer, tentem o que tentarem. Sem nós, eles não são nada!

Fernando Szegeri