Ontem, após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo dos EUA, cheguei à Vila Sá Barbosa e encontrei a Ana com o filho Antonio, o Totô, além do Teo e da Cris. Ana estava com os olhos inchados; Antonio, meio perdido, tentava compreender o sentimento de um debutante na Copa; Cris fazia um sinal de "não" com a cabeça e o Teo dizia: “Acabou a Copa para mim”. Também fiquei sabendo que a minha filha, Iara, foi uma das que choraram um rio de lágrimas ao apito final. Pudera: nascida em 2002, ela ainda não viu de verdade o Brasil ser campeão do mundo. Na última vez, era apenas uma nenenzinha.
Na verdade, meu relato está incompleto, meus leitores. Escamoteei a verdade, talvez por vergonha ou por achar que tenho culpa no cartório. Quando cheguei, os presentes no bar me deram uma breve zoada pela eliminação. Com algumas exceções, vimos praticamente todos os jogos juntos, ali na Vila, mas desta vez, por motivo de força maior, não pude estar presente nas oitavas de final. Acho que vou carregar esse estigma por quatro anos, igual ao nosso atacante Endrick, que perdeu um gol cara a cara com o goleiro e — se tiver caráter — vai ficar uns bons dias sonhando com isso.
O sentimento que fica para mim depois dessa experiência é que a seleção ainda é vital para os corações brasileiros. Imprescindível para as nossas relações de amizade, para a cultura do encontro e da farra. Ela nos lembra as mazelas e as virtudes do nosso país. Faz-nos sonhar que, num passe de mágica, a taça Jules Rimet vai curar todas as dores. É assim quando o destino da Canarinho está em jogo.
São 200 milhões de brasileiros que se transformam em especialistas em futebol e palpiteiros de plantão. Nesta edição da Copa, a Celinha recuperou os óculos com a bandeira do Brasil usados em 1998 (logo esse ano, Célia?) e com garrafinhas de cerveja na lente. Ela não enxerga nada através daquelas lentes amarelas, mas fica com os óculos para dar sorte. Foi uma das ganhadoras do bolão no primeiro jogo eliminatório. Marly, a mãe da Célia, comprou uma vuvuzela e descobriu na hora que não sabia como tirar som dela. Foi ajudada pelo Pedro, marido da Luciana. A Lu, por sua vez, é quem informa ao Pedro o nome dos jogadores do Brasil.
Vou sentir falta dessa "mobilização nacional". Foi triste ver a seleção brasileira eliminada pela Noruega, com seus vikings fakes e aquela comemoração de remada insuportável. Eu me sinto completamente órfã do ajuntamento, da expectativa gostosa de sermos campeões, da pauta "seleção brasileira" surgindo a qualquer hora do dia na conversa, dos memes.
A realidade dura e cruel recaiu em um domingo, com esta segunda-feira a nos espreitar sem dó nem piedade, trazendo dívidas, dores, cartão de ponto, reuniões online... O vazio que a Copa deixa, pelo menos temporariamente, é a nossa solidão.
Railídia
2 comentários:
Perfeito!
Estamos aqui lambendo as nossas feridas cívicas.
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