quarta-feira, 29 de julho de 2026

Acabou o nosso carnaval

Este texto foi escrito no dia 25 de julho

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Eu sei, eu sei que estou atrasada na minha despedida do Dibrinho. 

Por isso mesmo vou sem mais distrações voltar àquela segunda-feira, 20 de julho, após a conquista da Copa do Mundo pela Espanha:  Parecia quarta-feira de cinzas, meus leitores.

Imagine se a Argentina tivesse sido campeã…clima de velório completo. A exceção seria o editor do Dibrinho. Nos anos 50, o Nelson Rodrigues sempre falava da “Hungria do Armando Nogueira”. Em 2026 tivemos a “Argentina do Fernando Szegeri.”

Não resisti, Fê. 

Agora é cinzas. Tudo acabado. Pausa para depressão, como me falou o Teo que ouviu por aí. Sensacional! 

Sou otimista por natureza. Mesmo magoada com a queda do Brasil tão cedo, acredito que vamos reconstruir nossa autoestima. 

Mais que dos jogadores de futebol, sou fã do povo brasileiro. É nossa gente que dá essas crias pra o Brasil e para o mundo. Um baque desses que sofremos vai nos fazer criar casca. 

O próximo ciclo vai ser de renovação. Das cinzas de 2026 vai nascer uma nova geração que vai recuperar quem somos. 

O Brasil é tão grande que não tem Ancelotti, CBF, pipoqueiros que deêm conta da nossa força. 

Vimos um falso Brasil e mesmo assim torcemos. Imagina quando nosso verdadeiro país for descoberto. 

Até 2030!


domingo, 19 de julho de 2026

Ainda resta um pouco de esperança

 

Escrevo este texto exatamente duas horas antes da grande final da Copa de 2026. Na bola, uma grande Copa, apesar de todos os (imensos) senões extracampo. E na verdade não só na bola, porque o futebol é esse grande teatro contemporâneo de encenações dos nossos dramas, emoções, contradições, humanidades. E isso tudo, definitivamente, sobrou.

Escrevo para me desculpar. Inicialmente com os leitores (vale dizer: Bruno, Célia, Rai, Stê e Teo), porque não dei conta de levar o Dibrinho como eu gostaria. Simplesmente não dei, e aqui não é o lugar pra se investigar as causas disso. Em segundo, com Lionel Messi. Porque, seja por alguma obtusidade pessoal, ou somente mesmo pelo meu desinteresse pelo futebol de clubes da Europa, demorei para reconhecer o IMENSO jogador de futebol que é. Em termos da história das Copas – e é disso que esta coluna se ocupa – ouso dizer que se equipara, e por enquanto só aí, a Diego Armando Maradona. Daqui quatro horas, pode superar Dom Diego e se equiparar a Manuel Francisco dos Santos, o Garrinhcha, na hipótese de se tornar bi-campeão do mundo como protagonista indiscutível de uma campanha por todos os aspectos admirável. Meu respeito, minha profunda admiração por Messi: é um grande privilégio ter vivido para poder ver-te jogar, pibe! Obrigado, muito obrigado, Lionel Messi!

E escrevo, por fim, pra deixar um registro. Muita, mas muita besteira se disse nessas últimas semanas sobre torcer ou não para a Argentina. Torço muito pela Argentina. Pela Seleção, pela Nação. Há a rivalidade, há as rusgas, há as contrariedades, decepções, raivas. Onde não há? No amor há, com os filhos há, com os amigos. Torço porque me sinto latino-americano, mais do que brasileiro. E isso não é um mandamento, nem uma posição ideológica, nem algo que nasceu comigo. É só um sentimento que cresceu dentro de mim ao longo da vida. Mas torço, sobretudo, por uma imensa admiração, respeito e, por que não dizer?, uma dose razoável de inveja: eles têm o que eu gostaria de ter. É raça? De alguma forma. É o amor pela camisa, pela Seleção? Indiscutivelmente. Mas é, acima de tudo, pelo que para eles ainda torna possível haver essa raça, essa dedicação, esse amor: a capacidade que têm – e nisso não são exclusivos, mas são imensos – de se encantar. E aqui quero dizer especialmente, que é o que ora interessa, se encantar com e pelo Futebol. E não é só dos jogadores, ou da comissão, é de todo um povo. Porque como diz um amigo meu, o contrário da morte não é a vida, o contrário da morte é o encantamento. Eles não morreram. E, neles, eu não morro. Renasci em 2022, renasço mais em 2026. E a minha gratidão será eterna. À genialidade de Messi, ao bom futebol jogado por esse grande time, fora dos cânones da unanimidade burra que grassa, a um técnico que expressamente prefere o mate, a parrilla e a milonga aos teoremos geométricos de números aborrecidos. Obrigado, muito obrigado, Lionel Scaloni!

Vi por esses dias, em que me debrucei sobre a história e as histórias de Messi, como já eles começam a endeusá-lo e cultuá-lo das mais variadas formas. E isso será elevado a uma potência inimaginável se los hermanos hoje se igualarem a brasileiros e italianos na conquista de dois mundiais seguidos. Entendi que não era sobre Maradona, tão somente. E também não é sobre Messi. É sobre eles; e sobre esse Encantamento. É sobre receber sob vivas e aplausos pelas ruas o time goleado pela Alemanha em 2010. É sobre mexicanos, caboverdeanos, libaneses e bengali. É sobre ídolos, heróis, mitos; sobre a capacidade de ver que “a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais. Que os olhos não conseguem perceber. Que as mãos não ousam tocar. Qu os pés recusam pisar”. Felizes daqueles que ainda podem sonhar, que ainda podem se Encantar com essa bola que corre de pés em pés dentro de quatro linhas; que ainda podem fazer do Futebol esse lugar de dramatizar, aprofundar, esquecer suas dores, frustrações e dificuldades; relativizar, colorir, celebrar, multiplicar seus afetos, alegrias, esperanças. O Futebol, sim, meus queridos… Essa brincadeira de meninas e meninos. Puro amor à bola, à vida, à humanidade. Até, porque fora disso, não há mais nada a fazer.

Fernando Szegeri


E.T. Com este texto, despeço-me do Dibrinho. Foi bom, desde 2010. Cumpriu a sua função, só não mais por minha exclusiva responsabilidade. Agradeço imensamente à Railídia e ao Chico Szegeri que em diferentes momentos se animaram com a brincadeira e deram, indubitavelmente, uma qualidade, um colorido, uma vitalidade fundamental para que essa coluna chegasse até aqui. Agradeço aos outros quatro leitores acima nomeados e reitero o pedido de desculpas. A página está de portas abertas à Rai e ao Chico para suas despedidas. Acho que ficaríamos todos bem felizes. Ponto final. Tchau.


Inglaterra x França

 

Não posso me furtar. Contrariando as expectativas gerais para um jogo de disputa de terceiro e quarto lugares, os súditos de sua majestade e les enfants da la patrie protagonizaram uma mini-guerra dos 100 anos, sem mortos e sem feridos. Muito ao contrário, só beleza, só bola, só show para o deleite dos privilegados que tiveram olhos de ver. Cereja do bolo para essa Copa farta de vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Obrigado, obrigado!

E, ao fim e ao cabo, ficou bonito pra todo mundo: pra França por ter reagido à altura da grandeza dessa seleção, depois de terminar o primeiro tempo tomando de quatro (qualquer lembrança amarga é mera livre associação daqueles de quem foi tirado o pouco que tinham), e pra Inglaterra por não ter deixado a virada acontecer. E sobraram abraços e sorrisos, dentro e fora de campo! Viva o Futebol!

Fernando Szegeri


terça-feira, 7 de julho de 2026

Humilhação patriótica

A semana começou mal e está seguindo pior ainda para os times latino-americanos e outros que a torcida brasileira escolheu torcer: México, Colômbia, Egito. Caíram todos. No caso do Egito, com requintes de uma certa crueldade. Sobrou o velho continente com Inglaterra, Espanha, França e Bélgica além do solitário africano Marrocos.

Os insuportáveis Argentinos também passaram no sufoco contra o Egito. Um pesadelo completo.

Estamos perdidos: Marrocos, que é o que resta aos brasileiros, levou gol do Haiti.

Em meio a esse cenário assombroso e desesperador para a torcida brasileira, eis que surge uma voz dissidente dos baba-ovos da Argentina e do Messi. Flávio Prado deu a seguinte declaração: “A Argentina ainda não jogou contra ninguém e tomou dois sufocos horrorosos”. Flávio Prado, “nunca” te critiquei. 

Não existe a menor chance de eu torcer para a Argentina. Uma nação que sempre que pode debocha da gente e nos ridiculariza. Quero ver o dia em que o jornal Olé vai babar (aquela baba elástica e bovina) elogiando feitos da seleção brasileira. Dia de São Nunca. Já por aqui, nossos jornalistas patrícios (com aquela baba elástica e bovina e aquela humildade patética) só faltam dizer: “Brasil, aprenda com a Argentina”. 
Não, muito obrigada, já temos muitos racistas por aqui.

A Copa virou guerra e a ruína da Argentina está próxima. Deus, por favor, o senhor é brasileiro. Daí não vai ter juiz, mano de Dios, nem Messi. Depois decime que se siente. 

 

Railídia 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Neymar é o meu personagem da semana

A segunda-feira é dura de engolir, especialmente após uma eliminação da seleção brasileira para a Noruega na Copa do Mundo. A nação poderia ficar anos com insônia cívica e batendo no peito: “Somos uns merdas”. O meu personagem da semana divide opiniões e combina muitas virtudes, na bola; e profundos defeitos, na vida real. Neymar é o meu personagem da semana e me recuso a me despedir dele no futebol como detratora.

Se fosse parar de falar com bolsonaristas, nem olhava na cara de parte da minha família. Sinto como se o Neymar fosse um bolsonarista da minha família: “Todos nós vimos o Neymar nascer”. O Brasil ficou encantado com o menino da Vila e sua magia, dribles, gols. Sonhamos com um novo herói brasileiro, como tivemos no passado. 

Pois bem. Descobriram que ele é de carne e osso. Capaz de nos emocionar dentro do campo e de se fazer odiado fora dele. Conivente com a cultura machista, promotor das Bets, aliado da extrema-direita. Neymar está levando nas costas toda a culpa por um Brasil que sempre existiu e que, nós, temos a utopia de que um salvador da pátria vai nos redimir. Poxa, gente, se o Neymar tivesse toda essa consciência ele estaria filiado ao "virtuoso" PSOL.

Sou brasileira, mas não bato em cachorro morto. O Brasil tem essa especialidade. Amigos estrangeiros falam sempre muito da alegria, da solidariedade, da doçura do povo brasileiro. Somos assim mesmo, mas também somos cruéis com o Neymar “aleijado”. “Se o Neymar tá chorando eu tô sorrindo”.

As lágrimas do Neymar me partem o coração. Quando ele se despediu do Santos e do Brasil. Quando venceu a tão sonhada medalha olímpica no Rio de Janeiro e, especialmente agora, quando encerrou sua carreira na seleção sem levantar uma taça de Copa do Mundo. Ah, o Brasil tem outra especialidade: Aqueles videntes que sempre sabiam que isso ia acontecer. Daí chegam nessa hora e dizem, esfregando as mãos: “Eu Sabia” ou “Eu avisei”. 

Eu desconfio que faz 10 anos que a carreira do Neymar acabou. Tomou muita pancada pra parar de impor constrangimento aos europeus. O brasileiro tem memória curta, mas a pancada que ele sofreu na Copa de 2014 poderia ter deixado Neymar paraplégico. Imagine um Neymar nos campos europeus com aquelas perninhas finas, brincando, balançando na frente dos zagueiros, dando caneta, lençol e tirando uma com os pernas de pau do velho continente. 

Ontem, quando ele entrou em campo e se sentindo humilhado, como toda a nação, pelos vikings fakes, ele foi o único que bateu boca. Haaland (ou Rôla) tirou a gente e não podemos nem cuspir na cara deles? Ah, não. A seleção brasileira é um time de bananas. O técnico italiano desdenhou das nossas tradições. Foi um presente de grego e vamos ter que aturar ainda por quatro anos com aquele chiclete detestável. 

Neymar fez um gol de pênalti no finalzinho. Tirou uma onda com o goleiro da Noruega que tava cheio de marra. Sou conhecida por ser muito corneta, mas não mexa com meus brasileirinhos. Ver o Neymar tão vulnerável e solitário aos prantos no meio do campo me quebrou as pernas (ô trocadilho infeliz!). 

Obrigada, menino Ney.

Contra os céticos, os puristas e os ressentidos, você é o meu personagem da semana. 

Railídia 


A seleção é vital para o Brasil

Ontem, após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo dos EUA, cheguei à Vila Sá Barbosa e encontrei a Ana com o filho Antonio, o Totô, além do Teo e da Cris. Ana estava com os olhos inchados; Antonio, meio perdido, tentava compreender o sentimento de um debutante na Copa; Cris fazia um sinal de "não" com a cabeça e o Teo dizia: “Acabou a Copa para mim”. Também fiquei sabendo que a minha filha, Iara, foi uma das que choraram um rio de lágrimas ao apito final. Pudera: nascida em 2002, ela ainda não viu de verdade o Brasil ser campeão do mundo. Na última vez, era apenas uma nenenzinha.

Na verdade, meu relato está incompleto, meus leitores. Escamoteei a verdade, talvez por vergonha ou por achar que tenho culpa no cartório. Quando cheguei, os presentes no bar me deram uma breve zoada pela eliminação. Com algumas exceções, vimos praticamente todos os jogos juntos, ali na Vila, mas desta vez, por motivo de força maior, não pude estar presente nas oitavas de final. Acho que vou carregar esse estigma por quatro anos, igual ao nosso atacante Endrick, que perdeu um gol cara a cara com o goleiro e — se tiver caráter — vai ficar uns bons dias sonhando com isso.

O sentimento que fica para mim depois dessa experiência é que a seleção ainda é vital para os corações brasileiros. Imprescindível para as nossas relações de amizade, para a cultura do encontro e da farra. Ela nos lembra as mazelas e as virtudes do nosso país. Faz-nos sonhar que, num passe de mágica, a taça  Jules Rimet vai curar todas as dores. É assim quando o destino da Canarinho está em jogo.

São 200 milhões de brasileiros que se transformam em especialistas em futebol e palpiteiros de plantão. Nesta edição da Copa, a Celinha recuperou os óculos com a bandeira do Brasil usados em 1998 (logo esse ano, Célia?) e com garrafinhas de cerveja na lente. Ela não enxerga nada através daquelas lentes amarelas, mas fica com os óculos para dar sorte. Foi uma das ganhadoras do bolão no primeiro jogo eliminatório. Marly, a mãe da Célia, comprou uma vuvuzela e descobriu na hora que não sabia como tirar som dela. Foi ajudada pelo Pedro, marido da Luciana. A Lu, por sua vez, é quem informa ao Pedro o nome dos jogadores do Brasil.

Vou sentir falta dessa "mobilização nacional". Foi triste ver a seleção brasileira eliminada pela Noruega, com seus vikings fakes e aquela comemoração de remada insuportável. Eu me sinto completamente órfã do ajuntamento, da expectativa gostosa de sermos campeões, da pauta "seleção brasileira" surgindo a qualquer hora do dia na conversa, dos memes.

A realidade dura e cruel recaiu em um domingo, com esta segunda-feira a nos espreitar sem dó nem piedade, trazendo dívidas, dores, cartão de ponto, reuniões online... O vazio que a Copa deixa, pelo menos temporariamente, é a nossa solidão.

Railídia

domingo, 5 de julho de 2026

As virtudes da torcida brasileira

Nos jogos da Copa do Mundo estamos diante do brio, do caráter e da alma da torcida brasileira. Tirando alguns milhares que estão nos EUA, os 200 milhões em ação por aqui (oopaa, trocadilho) são um show à parte. Nas casas, condomínios, favelas, periferias, butecos, quintais, esquinas, avenidas, no metrô, ônibus pode-se notar aqueles corações magnetizados pelo futebol e sua força imprevisível e encantadora.

Ah, Nelson, como eu gostaria de te ter como espectador desta Copa do Mundo. Tuas crônicas seriam um novo “Os Lusíadas” da poesia esportiva. Ao ler suas crônicas, Homero, de “A Ilíada e a Odisseia”, diria do além: Nelson Rodrigues é o cara. 

Como sou sua devota, sigo por aqui observando e vibrando com as virtudes da nossa torcida.

Os brasileiros torcem pelo Brasil, torcem pelos latino-americanos e pelos africanos. No meu caso e de muitos que conheço, a exceção é dos hermanos que querem ser europeus. 

Mas é lindo de ver essas escolhas no dia a dia. Minha filha Iara me encontra no café da manhã e diz, com os olhos arregalados e dramáticos: Você viu o jogo do Paraguai x Alemanha? Você viu o jogo de Cabo Verde x Argentina? Daí ficamos quase gritando relembrando os momentos, o orgulho pela garra, personalidade e entrega desses jogadores peleando e sonhando até o apito final. 

Vi um influencer caboverdiano dizer, após a eliminação pela Argentina, que ninguém torce para os africanos como os brasileiros torcem. Disse que vai continuar torcendo agora pelo título do Brasil (Oxalá!). Eu reafirmo meu patriotismo pela Pátria Grande e pela África. Não posso esquecer do Egito que leva alento e solidariedade ao povo palestino. O capitão Mohamed Salah pediu ajuda humanitária para a faixa de Gaza.

A torcida brasileira da qual estou falando é o Brasil que eu amo entrando em campo.

“De nada adiantará o futebol se o homem não presta” (NR)

Railídia

Ps: Brasil joga hoje as oitavas de final contra a Noruega dos vikings. Vamo, meu Brasil!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

A seleção Canarinho e o algo mais

A seleção brasileira que eu sonho ainda não entrou em campo nesta Copa do Mundo.

Não falo do estilo mortal da França e nem da objetividade da Argentina com Messi. Muito menos eu me refiro ao tal do tik taka da Espanha ou do pragmatismo da Inglaterra.

Falta sentimento a seleção brasileira. Sabe aquela garra (não Uruguaia ou Paraguaia) de quem está mesmo num campo de guerra e lutando até o apito final? Aquela frase do hino “um filho teu não foge à luta”. Aquela garra à brasileira, a ginga, o bailado, o samba. 

Essa geração demonstra uma falta de energia que beira o formalismo e a burocracia. A claque de cronistas que precisa levantar a plateia dos auditórios segue no seu papel superdimensionando as apresentações burocráticas da nossa canarinho. Eu mesmo, pra não fazer o papel da corneteira em tempo integral, embarco no espírito dos narradores ufanistas. 

Só que lá no fundo, ainda que a seleção faça algum progresso, a mudança que eu gostaria não é a dos números frios da vitória. Esse algo mais que escrevi no título eu vejo em Cabo Verde e vi no Paraguai. Escrevo essa crônica ainda no quente do final do jogo da seleção Caboverdiana com a Argentina. Onde a soberba dos atuais campeões do mundo quase custou a classificação, mas não foi apenas isso.

O protagonismo foi de Cabo Verde, assim como o protagonismo foi dos paraguaios contra a Alemanha. Acho que Cabo Verde e Paraguai são meio antíteses uma da outra e digo isso sem querer desmerecer ninguém. O Paraguai entrou para sobreviver contra a tetracampeã. Cabo Verde entrou para competir e vencer o jogo. A coragem para sobreviver e a coragem para vencer.

A cada jogo sonho com a seleção brasileira altiva e, como diria Nelson Rodrigues, com os “mantos de cetim azul, com barra de arminho”, pendendo dos ombros. 

Concluo que os nossos jogadores precisam primeiro é vencer a perda da identidade e voltar a ser brasileiros. 

Railídia


Gustavo Alfaro é o meu personagem da semana

Amigos, após um silêncio sepulcral estou de volta ao Dibrinho.

Quero confessar que os insistentes pedidos do nosso grande público (leia-se Celinha Aguiar) foi importante para dar esse novo fôlego. O motivo da pausa só será conhecido no dia em que soubermos o que aconteceu com o Ronaldo Fenômeno na Copa de 98.

Chega de fugir do tema e vamos ao meu personagem da semana: Gustavo Alfaro, o técnico do Paraguai. La Albirroja es mi amor. Confesso que, desta vez, torci mais por eles que pelo Brasil. Tava meio borocoxô, mas a garra guarani da seleção Paraguaia me fez recuperar o encanto, o prazer e a adrenalina. O espírito lutador dos paraguaios me fez lembrar muito da personalidade do goleiro Chilavert: marrento, consciente, arrogante. Prefiro um jogador assim a um banana.

Todos davam o Paraguai como derrotado diante da Alemanha tetracampeã. A sobrevivência do Paraguai foi naqueles dias após o jogo um alimento para a nossa utopia. Nós, brasileiros, que nem nos reconhecemos sul-americanos, estivemos unidos pela Canarinho e pelos Paraguaios. Parece até que foi uma vitória da gente. E foi: Da Pátria Grande que sonha com uma integração dos países da América Latina e do Caribe. Crença alimentada por tantos sonhadores, entre eles Simón Bolívar, Eduardo Galeano, Darcy Ribeiro, Fidel Castro, José Martí.

Gustavo Alfaro tem todo o meu respeito. Fazendo um retrospecto das eliminatórias para a Copa, conseguiu trazer um espírito aguerrido e resiliente para a seleção. Havia 16 anos que o Paraguai não disputava a Copa. O que seria um crime para uma geração que tem um jogador como Gustavo Gomes, capitão do Palmeiras e capitão da seleção que é conhecida como La Abirroja pelas cores branca e vermelha do uniforme. 

Começou a Copa e o balde de água fria veio logo dos yankees imperialistas que golearam o Paraguai na estreia. Sobreviver era preciso e os paraguaios avançaram na raça, na estratégia de guerra, na personalidade e técnica dos líderes do time, entre eles o brasileiro Mauricio. Filho de pai paraguaio e mãe brasileira, Maurício foi o primeiro bater o pênalti. Depois o Gustavo Gomez. Meu Deus! Parecia o Palmeiras contra o goleiro Neuer.

Gustavo Alfaro me comoveu demais ao dar a seguinte declaração após a vitória nos penales contra a Alemanha: 

"Se gradúan en academias de primer nivel en Europa. Nosotros venimos de la tierra colorada, jugando descalzos en esta tierra, con el sacrificio de los padres para llevar a los niños a entrenar."

Qualquer semelhança com os “ninos” brasileiros não é mera coincidência. A Pátria Grande está no campo de guerra da Copa do Mundo. Ver uma seleção como a do Paraguai bater um gigante histórico como a Alemanha é o puro suco da imprevisibilidade deste jogo que amamos tanto. É um tapa naqueles que querem formalizar o futebol tirando dele o drama, o revide, as estratégias de vestiário. Ainda bem que o futebol sobrevive com o espírito da terra colorada, da várzea brasileira, dos campos de refugiados da África. 

Vamos, Paraguai! E que teu hino Guarani ecoe tão alto que possa fazer balançar a Marselhesa.

Railídia