Em 2005 eu assisti a um show da cantora caboverdiana Cesária Évora. Tive que sair da festa de casamento do Fê e da Stê para ir. Lembro que aborreci aos noivos e pessoalmente me aborreci. Que ideia! Ganhei os ingressos de presente da minha amiga Viviana. Um agrado desses não se nega. Ainda bem que eu fui. Se pudessem, os noivos também teriam ido. A festa inteira teria ido ver a diva dos pés descalços. Cesária era ao mesmo tempo beleza, protesto (descalça pelos desvalidos e pobres do seu país) e amor por sua terra natal quando entoava pelo mundo as tradições musicais caboverdianas.
Na Copa do Mundo de 2026 o Brasil está apaixonado pela seleção de Cabo Verde.
Há entre os brasileiros, sejam torcedores, narradores, comentaristas e repórteres uma simpatia por Cabo Verde. Entre os jornalistas, há os discretos e os descarados. Neste domingo, o jogo foi contra a Celeste Uruguaia. Terminou 2x2, quando Cabo Verde fez os primeiros gols em Copa do Mundo. Já tinha empatado sem gols contra a poderosa Espanha. Estamos vendo a história. E digo uma coisa: A raça Uruguai foi surpreendida pela ousadia, ótimo futebol e a imponência de Cabo Verde, que jogou para ganhar. O que eu vi foi o anti-viralatismo, Nelson. E eu, que guardo rancor da copa de 50, sempre que posso me satisfaço com um tropeço uruguaio.
Em duas rodadas, a seleção de Cabo Verde enxotou a mesmice que costuma tomar conta do futebol. Nesta Copa teve muito jogo assim: correto, tático, esquema desse e daquele, mas sem alma. Sem uma purpurina. Eu assisto futebol porque quero ver o craque, o perna de pau (é de um espanto comovente), o que não se assemelha a nada, quero ver o encanto e o desencanto. O lance no vazio, os heróis, os vilões. O futebol te dá o imprevisível e te arranca da rotina modorrenta dos mortais: “noventa minutos de emoção e alegria. Esqueço a casa e o trabalho. A vida fica lá fora...”
Cabo Verde com os pés descalços de Cesária Évora caiu no grupo da morte da Copa e continua vivo. Por esse motivo, essa seleção é o meu personagem da semana.
PS 1: Urgente, bora botar na vitrola Cesária Évora
PS2: Citei um trecho da música "Aqui é o país do futebol"(Milton Nascimento e Fernando Brant) gravada esplendidamente por Wilson Simonal
PS3: Midia esportiva, se diz seleção de Cabo Verde. De Cabo Verde. Não é do Cabo Verde. Ignorantes!
Railídia
4 comentários:
Lembro demais dessa escapada pra ver Cesária! muita paixão essa seleção desperta em nós todos que nos sentimos cabo-verdianos. Nos últimos 15 anos, além da cesária, cultivo um amor profundo pela mayra andrade. Lindo, lindo, lindo esses nosso irmãos! Lindo texto, Rai!
Que texto lindo Rai! Cabo Verde já fez história nesta Copa mostrando coragem, talento e coração. Independentemente dos próximos resultados, o povo cabo-verdiano tem muitos motivos para se orgulhar dessa seleção que encantou tanta gente pelo mundo. Uma trajetória que merece ser celebrada e lembrada por muito tempo.
Comecei a ouvir a Mayra Andrade por sua causa, Stê. Cabo Verde só me faz chorar. Imponentes! 11 realezas jogando. Nelson diria que era só colocar um manto em cada um deles. Pela autenticidade e garra desses jogadores. beijos
Fernandaaaaaa do Brasil! Podíamos nos organizar pra assisitirmos juntos o próximo jogo de cabo verde, heim, Fê. Um churrasquinho na calçada. Ainda não consegui comer um churras nesta Copa. beijos
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